Cometas – por Sérgio Godinho | 1 minuto de Astronomia

Nuno Peixinho

Os cometas são “bolas de gelo sujo”, “icebergs mascarrados”, com tamanhos que não devem exceder algumas dezenas de quiilómetros, que evaporam ao se aproximarem do Sol. Entendamos por gelo não apenas gelo de água (H2O) mas vários outros compostos químicos congelados, tais como monóxido de carbono (CO) ou metanol (CH3OH). E entendamos por sujo algo verdadeiramente enfarruscado, quase como alcatrão. Se os cometas têm mais gelos que poeiras ou mais poeiras que gelos, se são umas bolas feita por camadas diferentes, tipo cebola, ou se são sempre iguais à medida que os “descascamos”, já são questões ainda em estudo e em debate.

A observação dos cometas depende grandemente da sua distância ao Sol. O gelo de água no Espaço começa a evaporar quando se aproxima a menos de 2,5 UA do Sol. Mas outros compostos voláteis começam já a evaporar a partir de distâncias bem maiores. Quando evaporam, lançam para o Espaço os seus gases assim como as poeiras que neles estavam presas quando ainda eram gelos. A partir desse momento, podemos observar uma “cabeleira” esbranquiçada em torno do pequeno iceberg, que agora se evapora a desfaz e duas caudas que se estendem nos céus: uma de gases, azulada, e outra de poeiras, esbranquiçada. Empurradas pelo vento solar, um intenso fluxo de protões vindos na nossa estrela, esticam-se apontando sempre na direcção contrária ao Sol. Quando os cometas se distanciam, a sua temperatura baixa de novo e deixam de evaporar, voltando a ser os icebergs sujos que normalmente são, cometas inactivos pouco merecedores da atenção dos não astrónomos. Em média, um cometa poderá entrar em actividades uma centena de vezes até se desfazer, morrer ou, melhor ainda, tornar-se “zombie”. Os jactos de gases dos cometas arrastam consigo muitos grãos de poeira, mas não conseguem arrastar muitas das pedras e cascalho. Estas, acumulando-se na superfície do cometa, asfixiam-no ao não deixarem  os gelos aqueceram sob a luz do Sol. E assim, morto, mesmo com gelos no seu interior, o cometa não entrará mais em actividade.

Porém, mesmo que um cometa morra ou nunca mais volte, as poeiras que largou permanecem no interior do Sistema Solar por muito tempo. Quando essas poeiras entram pela atmosfera da Terra a alta velocidade tornam-se estrelas cadentes, pequeníssimos meteoros que deixam um rasto incandescente tão rápido que nunca conseguimos chamar a atenção de ninguém para o ver também. Sempre que a Terra cruza uma região de poeiras largadas por um cometa que passou, temos a possibilidade de observar uma chuva de estrelas.

Mas qual a origem, afinal, destes peculiares objectos? De onde vêm? Aquando da formação dos planetas no Sistema Solar, há cerca de 4.6 mil milhões de anos, misturando-se com poeiras os gases que congelavam para além de Júpiter formaram biliões de cometas. Mas, logo após a sua formação, os planetas migraram, isto é, mudaram em muito as suas órbitas. Durante este fenómeno, devido ao efeito catapulta da forte gravidade dos planetas gigantes, os cometas foram lançados em várias direcções. Uns foram lançados fora do Sistema Solar para nunca mais voltarem. Outros lançados para muito perto do Sol evaporando-se por completo. Outros, ainda, acumularam-se numa região para além de Neptuno, chamada de Cintura de Kuiper. Outros foram espalhados em torno do Sistema Solar a vários milhares de UA, formando a muito distante Nuvem de Oort.

Mas se muitos cometas houve que foram lançados para perto do Sol, não terão caído alguns aqui na Terra? A resposta é: sim! A dúvida é: quantos? Terão estes cometas trazido a água dos nossos Oceanos? Alguma, talvez sim. Possivelmente até metade. Toda parece que não. Mas ainda não sabemos o suficiente para o dizer com boa certeza. Há apenas 3 anos foram também descobertos cometas “escondidos” na Cintura Principal de Asteróides, localizada entre Marte e Júpiter, e levanta-se agora a hipótese de terem sido esses a principal fonte da água na Terra.

Certamente o choque de um cometa com um planeta deve ser um espectáculo digno de se ver. Desde que não seja o nosso, claro! Em 1994, observou-se a queda do cometa Shoemaker-Levy 9 em Júpiter, o qual se partiu em vários pedaços antes de cair, deixando em cada local de impacto uma enorme nuvem negra que levou anos a desaparecer. E neste mesmo ano de 2009, por se ter descoberto outra dessas nuvens negras em Júpiter, crê-se que outro cometa tenha lá caído sem que o tenhamos visto, infelizmente. Estima-se, também, que a extinção dos dinossauros, e muitas outras espécies, tenha sido causada pelas grandes alterações climáticas geradas pela queda de um cometa na Terra. Outras teorias existem, contudo.

Mas se algo de fantástico resta ainda por dizer sobre os cometas é o seu possível papel de catalisadores de vida na Terra ou mesmo, segundo teorias mais ousadas, de transportadores de vida extraterrestre. A Terra primordial parece ter sido muito pobre em carbono para, por si só, ter permitido o surgimento de vida. O carbono parece ter sido abundante para além da cintura de asteróides onde as temperaturas já são demasiado baixas para permitirem a enorme variedade de reacções químicas que a vida exige. No entanto, há cerca de 3,9 mil milhões de anos, a Terra sofreu um longo e intenso bombardeamento de cometas e asteróides. Sendo os cometas muito ricos em compostos químicos à base de carbono, a sua queda no nosso planeta pode ter sido o que nos permitiu existir.

~ por aia2009 em 12 de Novembro de 2009.

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