O Legado de Galileu – por Luís Represas | 1 minuto de Astronomia

 

Henrique Leitão;  (Centro de História das Ciências da Universidade de Lisboa)

Nos últimos meses do ano de 1609 – faz agora quatrocentos anos, portanto – Galileu Galilei começou a explorar os céus com um telescópio que acabara de construir. Foi a primeira vez que alguém estudava os céus sistematicamente com esse novo instrumento e as descobertas que ele fez iriam revolucionar a Ciência.

Galileu começou por olhar para a Lua, o corpo celeste mais próximo da Terra, que, quando vista com o telescópio revela uma esplendor insuspeitado. Analisando cuidadosamente, ao longo de vários dias, as zonas de luz e de sombra na Lua iluminada pelo Sol, Galileu chegou à conclusão de que a superfície lunar era muito irregular, coberta de montanhas e vales, crateras e proeminências. Usando um processo muito engenhoso foi ainda capaz de fazer estimativas da altura das montanhas da Lua. Estas observações acentuavam que a Lua era muito semelhante à Terra, na verdade, que era quase como uma outra Terra.

Galileu observou seguidamente várias constelações, descobrindo muitíssimo mais estrelas do que aquelas que se conseguem ver com a vista desarmada. O telescópio não mostrava apenas mais detalhes nos corpos celestes, mostrava sobretudo que o Universo era incrivelmente mais vasto do que se pensava, e revelava o facto perturbador de que, apesar de a astronomia ser uma ciência milenar, até então pouco ou nada do Universo tinha sido avistado pelos astrónomos.

Mas a mais sensacional das descobertas que Galileu fez, no princípio do ano de 1610, foi a de alguns pontos luminosos, como estrelas pequenas, que se deslocavam muito rapidamente nas vizinhanças do planeta Júpiter. Ao princípio Galileu vislumbrou apenas três pontos, mas passados poucos dias constatou que eram afinal quatro, e não foi preciso muito tempo para concluir um facto assombroso: esses pontos luminosos eram pequenos planetas circulando em torno de Júpiter. Júpiter tinha satélites, tal como a Terra é rodeada pela Lua.

Esta descoberta era verdadeiramente surpreendente e inesperada já que nenhuma teoria da antiguidade, nem mesmo as mais excêntricas, tinha alguma vez sugerido a possibilidade de em torno dos planetas conhecidos circularem outros planetas menores. A descoberta dos satélites de Júpiter levou Galileu a, muito rapidamente, escrever e publicar um livro dando conta destas notícias, que ele próprio caracterizava como novidades que causavam um “espanto infinito”.

O livro que Galileu publicou em Março de 1610 relatando todos estes factos e observações chamava-se, muito apropriadamente, Mensageiro das Estrelas [Sidereus Nuncius] Foi um sucesso instantâneo e o seu aparecimento lançou a Europa em acesos debates acerca do Universo. Nunca na história da ciência umas poucas dezenas de páginas causaram uma comoção tão grande.

Mas Galileu não abrandou o ritmo das suas investigações e poucos meses depois havia descoberto mais dois fenómenos sensacionais.

Um deles era que o planeta Saturno tinha uma configuração muito peculiar. Não era apenas um globo esférico como os outros planetas, mas estava rodeado por duas pequenas protuberâncias que às vezes pareciam mesmo dois pequenos planetas laterais. Galileu chamou a esta observação mais uma “extravagantíssima maravilha”. Sabemos hoje que o que ele vira era o anel de Saturno, embora, com os telescópios imperfeitos de que dispunha, isso não tivesse ficado logo claro.

E fez também aquela que é possivelmente a mais importante de todas as descobertas telescópicas: que o planeta Vénus tem fases, tal com a Lua, passando por configurações como Vénus crescente, decrescente, cheio, etc. As fases que Galileu observou em Vénus só podem ser explicadas se o planeta rodar em torno do Sol. Aparecia assim pela primeira vez na história uma confirmação sensível de que Vénus não rodava em torno da Terra, como a astronomia antiga sempre pensara, mas sim em torno do Sol.

A observação de fases em Vénus, contudo, embora prove que o antigo sistema astronómico de Ptolomeu está errado, não é suficiente para provar o sistema de Copérnico. Ficava assim lançado um debate que se prolongaria por todo o século dezassete.

Para além dos notáveis fenómenos astronómicos que deu a conhecer, Galileu colocou também no centro de todas as investigações astronómicas um novo e revolucionário instrumento, o telescópio, e isto alteraria para sempre o modo como os instrumentos são usados em ciência.

As descobertas de Galileu desafiaram as filosofias convencionais e não deixaram ninguém indiferente. As suas observações ajudaram a difundir a noção de que é o Sol o centro do nosso sistema planetário e não a Terra. As suas descobertas foram tão importantes que muitos lhe chamaram “o pai da ciência moderna”.

O legado de Galileu é sobretudo a noção de que o Universo é muitíssimo mais complexo e diversificado do que podemos imaginar, mas que, por mais exótico e surpreendente que seja, está sempre ao alcance dos nossos sentidos e da nossa razão. A surpresa causada pela espantosa complexidade do universo só é superada pela surpresa ainda maior de que o conseguimos compreender. Este é o grande legado de Galileu, um legado que resistiu à passagem do tempo a ponto de se tornar na fundação sólida da Ciência Moderna.

~ por aia2009 em 13 de Novembro de 2009.

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